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A fase única do Luto.

Há cerca de três horas meu cérebro perdeu a capacidade de processar informações corretamente. Não consigo formar uma linha lógica de pensamento, muito menos uma linha lógica de sentimentos e por isso eu peço antecipadamente desculpas aos leitores desse blog, caso nada do que eu falar fizer sentido. Caso a minha gramática esteja incorreta, porque eu definitivamente não estou pensando em concordâncias.

Hoje eu acordei com uma notícia triste. Uma notícia que eu não esperava ouvir nunca e que é tão surreal que chega a ser quase impossível de acreditar. Dizem que há cinco fases do luto... a fase da raiva, da negação... da negociação, da tristeza e, por fim, da aceitação. Não é que eu não acredite nisso, mas nesse momento todas essas fases se encontram juntas, numa grande massa que fez meu coração ficar mais pesado e o mundo, de repente, ter perdido um pouco das cores. Um amigo meu morreu. De um "mau súbito", ele simplesmente foi embora. Sem aviso prévio, sem qualquer tipo de preparação, ele simplesmente... morreu. Eu nem consigo pensar nisso de uma forma metafórica ou poética. Não agora, nem dessa vez. A notícia da morte dele foi tão devastadora, que eu só consigo pensar nela como ela é: Ele morreu.

Me lembra uma quote que eu postei no meu facebook, só uns dias antes disso:
"When King Lear dies in Act V, do you know what Shakespeare has written? He's written "He dies." That's all, nothing more. No fanfare, no metaphor, no brilliant final words. The culmination of the most influential work of dramatic literature is "He dies." It takes Shakespeare, a genius, to come up with "He dies." And yet every time I read those two words, I find myself overwhelmed with dysphoria. And I know it's only natural to be sad, but not because of the words "He dies." but because of the life we saw prior to the words."
E foi isso, simplesmente assim. E agora minha mente oscila tanto, que eu não sei o que responder quando alguém me pergunta "Como você tá?". Eu estou conformada e inconformada ao mesmo tempo. Eu não estou acreditando e estou chorando por ter acontecido, ao mesmo tempo. Eu não consigo imaginar e imagino perfeitamente, ao mesmo tempo. E ao mesmo tempo em que eu vivencio um vazio estranho, eu lembro dos poucos, mas preciosos momentos que nós tivemos juntos e tudo fica confuso. Quero guardar tudo isso com carinho e ficar feliz pelas boas memórias, ao mesmo tempo que fico triste porque nunca haverão novas lembranças a serem feitas. E ao mesmo tempo em que penso que queria tê-lo visto mais uma única vez, pelo menos, me faz pensar... se ainda assim seria o suficiente. Afinal, quantas vezes é o suficiente ver alguém para poder dizer adeus pra ela? Acho que nunca seria o momento. A saudades sempre iria ficar e a gente sempre ia pedir um pouco mais de tempo. Eu queria que nós tivéssemos tido mais tempo, especialmente porque ele era tão novo e eu nem consigo imaginar o que poderia ter sido o "mau súbito" que o levou embora, um dia depois de ter postado no blog dele. É estranho ver todas esses fotos, todos esses sorrisos e pensar que nada disso volta, nunca mais. Faz a gente pensar numa porção de coisas, na verdade. Nunca esqueço de quando meu tio morreu, também do nada, mas era porque ele fumava feito um desgraçado, tinha passado dos 40 anos e cuidava da saúde dele igual a bunda. Ele veio aqui em casa uns dias antes de morrer, me trazer um envelope com uns documentos que eu precisava. Mas quando ele chegou na portaria do meu prédio, eu tava de pijama em casa e pedi pra ele deixar lá, que eu passava pra pegar quando fosse sair do trabalho. Eu não o vi naquele dia porque eu tava de pijama e dias depois ele morreu. Fiquei muito tempo pensando que perdi a oportunidade de tê-lo visto uma última vez, mas... a gente volta no "quando seria?". E a única coisa que eu pude fazer foi guardar o envelope, como uma memória preciosa, na minha gaveta de memórias preciosas. Assim como com o Kazuno agora. Só posso guardar as palavras dentro da minha memória. Os sorrisos dentro do meu coração... e as fotos em porta-retratos, pra eu poder olhar pra sempre e lembrar que pessoa maravilhosa ele era. E ele era mesmo, não é um daqueles elogios enfadonhos que a gente faz sempre como memória póstuma, como se a pessoa fosse a melhor do mundo. Ele era mesmo o melhor e eu sempre disse isso.

Eu sei que muita gente vai olhar isso aqui agora e pensar "É sério que esse post é por causa do vocalista de uma banda?". É verdade, o Kazuno era vocalista de uma banda japonesa chamada Charlotte, mas se engana muito quem pensa que eu fiz esse post por causa do Kazuno - o vocalista. Se engana muito quem pensa que esse vazio, essas lágrimas e essa falta de lógica ou ordem dentro do meu peito é por causa de uma voz, de presença de palco incríveis e de uma energia positiva que eu nunca vi igual. Esse post é por causa do meu amigo Kazunori Adachi. O homem que eu conheci atrás do palco. O homem que, pra mim, era o coração de uma banda que sempre foi um símbolo de esperança. Um daqueles símbolos de que sonhos são reais e a gente sempre pode conseguir o que a gente quer.

Eu nunca me esqueço da primeira e única vez que o Charlotte veio pro Brasil, em 2007. Eu iria apresentar o show, que era pequeno, numa kaikan, e não falava quase nada de japonês. Lembro que eu tinha que chegar bem cedo de manhã e o lugar era minúsculo e só tinha um lugar de "backstage", que era no mesmo camarim que a banda. Eu só tinha ouvido algumas músicas deles, até então, não era fã nem nada, mesmo porque o estilo deles nunca foi muito a minha praia. Mesmo assim, foi antes mesmo do show começar que já dava pra sentir todo aquele... não sei, amor, que eles emanavam, especialmente o Kazuno. Ele era a estrela do Charlotte, com certeza. Ele era simpático e fazia piadinhas o tempo todo, brincava o tempo todo com todo mundo, não tinha tempo ruim. Não existia aquela coisa de "artista > funcionário", todo mundo ali era igual e eles se divertiam com todo mundo. Eu nunca me esqueço que eu sentava quietinha no canto do camarim, pra não atrapalhar ninguém, e também porque eu tava sozinha e não entendia nada do que os caras da banda tavam falando. E o Kazuno sempre ia até onde eu tava e falava "NÉ?", só pra fazer eu rir. Ou ficava falando coisas aleatórias em português, só pra tentar me interagir, ou qualquer coisa assim. Quando eles subiram no palco, o amor foi maior ainda e isso é difícil explicar pra quem não estava lá. Fica mais fácil dizer que não existiu uma pessoa, daquelas 600 que assistiram o show de São Paulo, que não saiu completamente encantada com o Kazuno e com a alegria contagiante que ele passava pra banda e pros fãs ao mesmo tempo. Depois, de lá, peguei um ônibus pra ir pro Rio de Janeiro, porque eu ia apresentar lá também. No RJ eu trabalhei pra caramba no camarim, antes mesmo deles chegarem com a intérprete, que era amiga minha. Queria que tudo saísse direitinho, porque eles mereciam demais e quando eles chegaram foi a mesma coisa do dia anterior, a mesma energia, o mesmo carinho, o mesmo tudo. O Kazuno fazia gracinha pra gente, do palco, eu nem posso falar o quão divertido foi aquilo e, por isso, na hora que eu tinha que ir embora, eu acabei chorando muito, já de saudades. E o Kazuno foi o primeiro a ir me abraçar. Não sei quantas pessoas, das que estão lendo isso, sabem o quão reservados japoneses são. O quão eles são sistemáticos e jamais ultrapassam a linha do espaço pessoal deles para entrar na sua, a menos que haja muita intimidade e olhe lá. Pra quem já foi pro Japão, sabe perfeitamente o que eu quero dizer com "você é invisível, nas ruas". Porque você realmente é. Então eu já sabia que o Kazuno, e o Charlotte todo, era muito diferente de qualquer outro japonês que eu já conheci, simplesmente por permitir uma coisa assim, por permitir um abraço, uma bagunçadinha de cabelo e tratar as pessoas de um jeito todo e completamente especial. Quando eles foram embora, no aeroporto, também trataram todo mundo bem, brincando com os fãs, os funcionários do show, tudo, como se todo mundo fosse amigo de longa data, que só vieram visitar.

Depois disso, o Kazuno nunca mais voltou pro Brasil. O Charlotte chegou a vir, como integrantes de uma outra banda paralela, mas o Kazuno não veio. No entanto, eu tive a sorte... não, eu tive a honra de poder encontrar com ele, mais uma vez, em 2009. Dessa vez eu tive certeza de que ele era uma pessoa especial. Uma pessoa diferente. E ele foi, mesmo, um anjo pra mim. Um anjo repentino, mas só consigo pensar nele assim, agora. Era Natal e eu estava no Japão. Tinha ido pra lá no dia 2 de dezembro, fazer um curso de conversação e ia ficar dois meses. Naquela altura, meu japonês tava bem melhor já, eu conseguia de fato me comunicar, conversar e fazer amigos, bem diferente do que eu era em 2007. Fiquei sabendo que o Charlotte ia fazer um show especial de Natal, no dia 26, e comprei o ingresso pra ir. E os dias 24 e 25 foram uma merda, pra dizer o mínimo. Eu tinha conseguido o ingresso pra assistir o show do Gazette, dia 24, mas deram milhões de merdas e eu não pude ir (eu não tenho ressentimentos com isso, mas a frustração daquele dia, de saber que meus ídolos tavam ali do meu lado e eu não podia ver, era de detonar). O Natal em si, nem se fala. O metrô quebrou, fiquei com um amigo meu no meio de Tokyo, presos, com tudo lotado e no frio, do iutro lado do mundo longe da minha família e dos meus outros amigos, passando a virada brigando e... enfim, foi uma merda de um jeito que eu achei que não poderia ser. Mas dia 26 eu viajei pra Yokohama, pra assistir o show do Charlotte em um salão do Yokohama Arena. Tive a sorte de ser um show bem pequeno e fiquei bem na frente. Era um show especial, então foram 3 horas de show. 1h30 de músicas e 1h30 de atividades, porque era uma espécie de bonenkai, além de ser aniversário do Mitsujou, um dos guitarristas da banda. Eles fizeram bingo, do palco, foi divertidíssimo. Mas até aí, nenhum deles parecia ter me reconhecido (a única ocidental no meio das japas, mas ok) e eu já estava ficando até meio triste, pra completar o natal lindo. Quando tudo acabou e eles foram pro camarim, eu decidi arriscar uma última tentativa antes de ir embora e pedi pra uma staff deles avisar que eu queria dar um oi, que eu era a staff deles do Brasil, caso eles não se lembrassem. Quando ela voltou, e eu com o coração na mão, ela disse "Dana-san, eles já estavam te esperando, pode entrar lá", e eu não só fui recebida com sorrisos, mas com abraços e animados "O que você tá fazendo aqui? Veio estudar?" e coisas assim. Foi quando o Mitsu falou pra mim "Não vai embora ainda, o Kazuno quer te ver", porque ele ainda estava arrumando as coisas dele no palco. Aí eu disse pra ele "Mas o Kazuno não deve lembrar de mim" e ele disse "Claro que ele lembra, espera aqui, pode sentar". E eu sentei no sofá e quando o Kazuno chegou, ele foi só sorrisos, falando coisas ainda em português pra mim, que mesmo depois de dois anos, ele não tinha esquecido. Eu não consigo expressar o que eu senti naquela hora. Eu não falava nada de japonês em 2007, falava bem toscamente, como que ele podia lembrar, sabe? Mesmo assim ele, não só lembrava, como elogiou como meu japonês tava ótimo, que eu devia sim continuar estudando. E aí ele sentou do meu lado e quando todos os outros membros da banda foram fazer as coisas dele, ele ficou lá, perguntando como havia sido o meu Natal, que devia ter sido triste pra mim estar longe da minha família, mas que eu tinha que aproveitar e, enfim. Um monte de coisas, a gente conversou literalmente por horas. Isso tudo, claro, entre as brincadeiras, as risadas, as coisas que ele contou dele mesmo. Eu não estava sentada ali como "a staff do brasil, no camarim da banda", eu era só... sei lá, a Dana brasileira, amiga deles, com quem a gente falou de uma infinidade de coisas, mesmo que só por duas horas e meia. O Kazuno deu a idéia da gente tirar uma polaroid, que ele autografou também e foi ele quem escreveu, em português "Obrigado!". Mas era eu quem tinha que agradecer.. por ter me recebido de braços abertos, por ter falado aquelas coisas, por ter sido tão fofo, tão simpático e ter falado ainda "É que a gente tem que ir pra Osaka amanhã, senão a gente podia sair hoje, todo mundo". Ele me fez me sentir tão especial, não porque eu era "amiga de uma banda famosa", mas simplesmente porque eu fui bem-recebida e bem tratada por alguém com o espírito tão reluzente assim. Todos os meninos do Charlotte são fofos, mas eu sempre disse que o Kazuno era o melhor e ele era. Ele salvou o meu natal, vestido de papai noel... me dando outro abraço quando eu tive q ir embora, senão eu perdia o último trem... e falando pra eu não ficar triste, pq a gente ia se encontrar de novo "um dia". "Um dia"...

E quando eu acordei hoje com a notícia de que esse "um dia" não iria mais existir, foi como se as coisas ficassem cinzas, um pouco. A raiva só veio pela falta de explicações. "Morreu de um mau súbito". Que mau súbito poderia levar alguém tão jovem e tão bem de espírito? Não consigo entender, é difícil mesmo. E ao mesmo tempo em que penso que nunca mais vou ver aquele sorriso de novo ou aquele umbigo na minha cara falando "vai, coloca o dedo no meu piercing", eu penso que ele só pode mesmo ter sido um anjo. Um anjo que veio fazer muitas pessoas, assim como eu, se sentirem especiais. Um anjo que veio mostrar que sonhos podem ser verdade, que existe amor e carinho no mundo até de quem você nunca esperava. Um anjo que veio mostrar valor da amizade e da humildade, tratando todo mundo como um igual. E um anjo que, agora volta ao próprio mundo, onde ele vai ter asas pra poder passar isso pro mundo inteiro. Isso, de certa forma me conforta, espero que conforte também a família, os amigos e outras pessoas que sentem a morte dele tanto quanto ou bem mais que eu. Queria ter mais tempo pra ter aproveitado aquela companhia maravilhosa, mas agora eu já sei de que nome chamar o meu anjo da guarda.

E obrigada, mais uma vez, Kazuno. Suas músicas vão, ainda, me fazer sorrir, porque era assim que você queria ver todo mundo. Obrigada.

[PS - Depois de postar tudo isso, eu sorri porque apareceu um arco-íris lindo na minha janela ♥ É um anjo mesmo, devolvendo as cores que a partida dele levou~]

1 comentários:

Ronne Bispo disse...

Olá, Talvez um dia você veja esse comentário... E a primeira vez que vejo esse blog! parei aqui depois de umas pesquisas no Google sobre o Kazuno, pois até hj tento entender oq pode ter acontecido...Que mau subito seria este? Ele tiraria a própria vida? Já tinha alguma doença? N sei... Só queria saber pra poder acreditar, pq até hj eu meio que não aceitei...Eu nunca o vi pessoalmente, mesmo assim ele me fez sentir todo esse amor que emanava do Charlotte! foi minha primeira banda Japonesa... E até hj eu escuto, mas sempre acabo chorando. Acabei de Ouvir Yokohama Love History..E chorei bastante. É bom saber que outras pessoas tinham eles como especiais por que eles merecem! Outra banda com essa vibe n sei se vai aparecer... Até hj eu não me esqueço deles... e provavelmente nunca vou esquecer...T_T

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